terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

A palavra (en)cantada


Música para dizer, palavra para cantar.

Salve o compositor popular!


Encantada. Que palavra mais gostosa de se ouvir! Sempre me fascinou a sua sonoridade e dimensão poética. Remete aos contos de fadas, histórias das mil e uma noites, a serpentes dançarinas e todo o tipo de magia e feitiço. Encantamento tem a ver com sedução, com se sentir maravilhado, cativado, envolvido em uma aura de prazer, mergulhado num universo de delícias.
Palavra. “Palavra viva/ Palavra com temperatura, palavra/ Que se produz/ Muda/ Feita de luz mais que de vento, palavra” ... Nunca imaginei um mundo sem palavras. Engraçado: sem imagens, talvez. Mas, nunca, nunca, sem palavras. A ausência de palavra é ausência de humanidade. “Palavra boa/ Não de fazer literatura, palavra/ Mas, de habitar/ Fundo/ O coração do pensamento, palavra”. (E como a vida seria sem Chico Buarque? Não gosto nem de pensar ... ).
Helena Solberg, em momento de inspiração, soprada quem sabe por “um deus sonso e ladrão”, partiu de um jogo de palavras simples, usual – Palavra (En)cantada – para alcançar uma rima sonora rica em cores, ritmos e vozes. O documentário, lançado recentemente em DVD pela Biscoito Fino, não pretende defender teses, nem traçar um panorama histórico da música popular brasileira e sua relação com a literatura. Nele, os depoimentos se entrelaçam e são ilustrados com boa música, seja samba, bossa-nova, canção provençal, repente, rock ou rap. Não há voz dissonante, apenas tons e arranjos diferentes. “A língua é minha pátria. /E eu não tenho pátria: tenho mátria /E quero frátria ...” – esses versos do Caetano teriam se encaixado bem na proposta.
A verdade é que o multiculturalismo brasileiro deu origem a uma expressão musical inigualável no mundo. A “língua portuguesa brasileira” tem ritmo, cadência, é musical por excelência, como bem disse Lenine , com seus olhos vivos e fala contagiante. Se ouvir um “ãe”, um “inho”, um “ão” parte o coração de Lenine, o que dizer de “a estrofe derradeira merencória revelava toda a história de um amor que não morreu/ E a lua que rondava a natureza, solidária com a tristeza, entre as nuvens se escondeu”...
Trovadores não faltam na MPB. E nem poetas. Mas, discutir se uma letra pode ser considerada ou não poesia, para mim, não tem muita relevância. Adriana Calcanhoto está certa em pensar que a vida é muito curta para se perder tempo com debates desse tipo. Chico, em sua sabedoria, sempre quis ser reconhecido como compositor popular, ao lado de Noel, Cartola, Lupiscínio, Martinho da Vila, Paulinho da Viola e tantos bambas. Sua postura valoriza o compositor. Quem disse que ser poeta é mais importante que ser compositor? Não residiria aí um preconceito? Lembro-me dele cantando, junto com o autor Caetano, “Festa Imodesta”: “E acima da razão a rima/ E acima da rima a nota da canção/ Bemol, natural, sustenida no ar/Viva aquele que se presta a esta ocupação/ Salve o compositor popular”.
Nada impede, no entanto, que digamos, como o fez Paulo César Pinheiro, que Chico é um poeta, e também Caetano; que Gil é um filósofo; que Noel é um cronista do seu tempo; que Tom Zé é o maluco mais lúcido da MPB. José Miguel Wisnik e Luiz Tatit argumentam teoricamente, reforçando a importância da comunhão entre letra e música no cancioneiro popular brasileiro, que deu frutos extraordinários. “Somos antropofágicos!” – grita Zé Celso. Todos comem, ou bebem, de todas as fontes. E há as fontes primárias. Caymmi, a quem Bethânia, intérprete poderosa, chama poeticamente de Guimarães Rosa – “ele é bruto e puro”. Um diamante natural, brilhando no mesmo céu em que brilham Luiz Gonzaga, Pixinguinha, Adoniran.
Neste céu os poetas-poetas também festejam ao som de seus poemas musicados. Cecília Meireles, parafraseada por Fagner : “Quando penso em você/Fecho os olhos de saudade ... Tenho tido muita coisa/menos a felicidade”. Drummond, conduzido à avenida por Martinho da Vila, em um Sonho Sonhado. João Cabral de Melo Neto, apesar de não gostar de música, ouviu seus versos de Morte e Vida Severina cantados mundo afora (“esta cova em que estás com palmos medida/é a conta menor que tiraste em vida”). Hilda Hilst, lamentando que o poeta não ganha dinheiro nem visibilidade, queria ter seus poemas musicados, e eles foram, por Zeca Baleiro, em um dos trabalhos mais belos da MPB nos últimos anos (“Ode Descontínua e Remota para Flauta e Oboé – de Ariana para Dionísio”). Uma dessas músicas, interpretada por Zélia Duncan, com certeza está entre os pontos altos do documentário de Helena Solberg.
O rapper e escritor Ferréz utiliza o palco, onde o rap se configura como versão atual da crônica urbana periférica, para divulgar livros, ou seja, para falar sobre a importância da palavra escrita. “Livros deveriam ser distribuídos na cesta básica”, defende. Noutro extremo em que também impera a oralidade - o cordel -, Lirinha declama João Cabral antes de fazer seus repentes, porque compreendeu a força da poesia e a necessidade de dessacralizar a figura do poeta, para que ultrapasse a barreira da elite letrada e chegue às camadas populares. Diante de tudo isso, resta apenas dizer, ou cantar: “Mesmo miseráveis os poetas/ os seus versos serão bons”... Mesmo que os romances sejam falsos como o nosso/não importa, são bonitas/são bonitas as canções”.
A bênção Vinícius, poetinha superlativo, que nos ensinou que um bom samba é uma forma de oração. “E se hoje ele (o samba) é branco na poesia/ele é negro demais no coração”.


Texto de Gina Louise

domingo, 29 de novembro de 2009

Poesia sonora



Que a poesia é uma arte eminentemente sonora, ninguém tem dúvidas e muito foi escrito a esse respeito.
Há em todo poema ritmo e melodia próprios, ainda que não seja de música que o poeta esteja falando, que é o que seduz, na primeira audição ou leitura, o ouvido do leitor.
Mas às vezes o poeta vai além e traz, de fato,  música para dentro de seu verso. É o caso de Verlaine, na célebre "Canção de Outono", aqui transcrita em tradução de Alphonsus de Guimaraens : "Os soluços graves/ dos violinos suaves/do outono/ ferem a minh'alma/ num langor de calma/ e sono".
Ou Carlos Drummond de Andrade quando cita, em "A música barata" : "Paloma, Violetera, Feuilles Mortes,/Saudades do Matão e de quem mais?/ A música barata me visita/ e me conduz/para um pobre nirvana à minha imagem" e deixa clara sua preferência pelo som que vem da rua, persistente: "Não quero Handel para meu amigo/Nem ouço a matinada dos arcanjos./ Basta-me/ O que veio da rua, sem mensagem/ e, como nos perdemos, se perdeu."
O poema abaixo é do poeta parnasiano Olavo Bilac, do livro "Tarde", e é um bom exemplo de uso da música no verso, tão específica e detalhada, que o poema é quase técnico.


Sinfonia
Meu coração, na incerta adolescência, outrora,
Delirava e sorria aos raios matutinos.
Num prelúdio incolor, como o alegro da aurora,
Em sistros e clarins, em pífanos e sinos.

Meu coração, depois, pela estrada sonora
Colhia a cada passo os amores e os hinos,
E ia de beijo a beijo, em lasciva demora,
Num voluptuoso adágio em harpas e violinos.

Hoje, meu coração, num scherzo de ânsias, arde
Em flautas e oboés, na inquietação da tarde,
E entre esperanças foge e entre saudades erra.

E, heróico, estalará num final, nos clamores
Dos arcos, dos metais, das cordas, dos tambores,
para glorificar tudo que amou na terra!











quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Os sons de Pascal Quignard

Profundo conhecedor de música barroca, a ponto de criar o festival de Versailles dedicado ao gênero,  violoncelista, autor de "Todas as manhãs do mundo", a história de Saint-Colombe e Marin Marais, Quignard escreveu "Ódio à música", uma digressão sobre os sons da vida e da morte. O trecho abaixo mostra sua visão especial de como os sons permeiam nossa existência.

"As malas de vime no pó do sótão de Ancenis, o cheiro áspero da poeira seca e fina, nos raios de luz que as lucarnas estreitas concentravam. O pó de gesso que repercutia sobre as partituras musicais dos antepassados, escritas por filas de Quignard de enfiada, todos fabricantes de órgãos e organistas na Baviera, em Wurtemberg, na Alsácia, na França no século XVIII, no século XIX, no século XX. A maioria de suas obras estava anotada em papel grosso e azul. O ouro que caía da única lucarna, permitia lê-las, incitava a cantarolá-las.
O primeiro ritmo foi a batida do coração. O segundo ritmo foi a respiração e seu grito. O terceiro ritmo foi a cadência do passo na marcha a pé. O quarto ritmo foi o retorno invasor das ondas do mar batendo na praia. O quinto ritmo retira a pele da carne que foi comida, estica-a, fixa-a e atrai a volta do animal amado, morto, devorado, desejado. O sexto ritmo foi o do pilão no almofariz dos cereais etc. A cantilena renascendo de maneira inopinada informa, imediatamente, o estado no qual estamos, o humor com o qual será tecido o dia, a presa que conclamamos. É o que na classe de solfejo ensina-se às crianças com o nome de armadura da clave. A cantilena decreta em que tom o espaço do corpo está. Ela distribui o número de sustenidos e dos bemóis que devem ser lembrados quando tocarmos a peça, do dia até a progressão da noite, que envolverá o corpo e o rosto, mas não baixará o som do mundo".
Quignard, Pascal. "Ódio à música". Tradução de Ana Maria Scherer. Rio de Janeiro, Rocco, 1999. p.32-33.

Ouça aqui
Todas as manhãs do mundo